NewsGeneration: um serviço oferecido pela RNP desde 1997


ISSN 1518-5974
Boletim bimestral sobre tecnologia de redes
produzido e publicado pela  RNP – Rede Nacional de Ensino e Pesquisa
10 de julho de 1998 | volume 2, número 6

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Nesta edição:

NewsGeneration:



A Evolução das Redes Acadêmicas no Brasil: Parte 1 - da BITNET à Internet

Michael Stanton <>

Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP)

Introdução
A infra-estrutura das telecomunicações
Primeiros passos
Experimentação com a Internet
Uma rede de segunda geração
A implementação da nova rede
Outras redes não comerciais no país
O que viria depois de 1993
Lições aprendidas
Conclusão
Agraddecimentos
Referências

Depois de resumir o estado das telecomunicações no País no final dos anos 80, o artigo explica como esta infra-estrutura foi utilizada, a partir de 1988, para estabelecer diversas redes de computadores não comerciais¸ interligando instituições brasileiras e provendo-lhes acesso a redes internacionais. Em seguida, descreve a criação de uma rede de segunda geração, baseada em tecnologia Internet, que iniciou sua operação experimental em 1991, e que hoje provê o principal serviço não comercial no País. Por fim, ele conclui com uma descrição de outras tecnologias de rede já usadas no País, e com um sumário das principais mudanças depois de 1993. Pretende-se complementar este artigo mais tarde com outro que descreve a história recente das redes no País.

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Introdução

O Brasil iniciou sua interação com as grandes redes de computadores internacionais em 1988, e, até 1993, já havia alcançado a posição de trigésimo país em ordem de atividade, com cerca de 2.000 nomes de computador registrados no domínio .BR do Domain Name System (DNS) [2]. Este artigo descreve a evolução das redes nesta fase inicial e assinala as tendências que já eram reconhecíveis neste período.

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A infra-estrutura das telecomunicações

Até o final dos anos 90, as telecomunicações no País era monopólio estatal, normalmente exercido por empresas do grupo Telebrás. Estas incluíam a Embratel, responsável por serviços interurbanos e internacionais, e uma série de operadoras regionais, tipicamente oferecendo serviços locais e de acesso dentro de um único Estado. Até 1989, a provisão de serviços de comunicação de dados era um monopólio explícito da Embratel, e as operadoras ofereciam poucos serviços de valor adicionado. Tempos depois, passaram a competir com a Embratel na oferta de serviços de comunicação de dados, pelo menos a nível regional.

Depois de 1970, a infra-estrutura de telecomunicações vinha sendo expandida e modernizada, tanto a níveis local, como de longa distância. Até o final dos anos 80, as regiões mais populosas do País eram servidas por uma malha de mais de 23.000 Km de troncos de micro-ondas, e estes já estavam sendo convertidos para usar transmissão digital. A maior parte do restante do País era servida por comunicação via satélite doméstico, usando dezenas de estações terrestres.

No final dos anos 80, a Embratel oferecia os seguintes serviços de comunicação de dados: linhas privadas, com taxas de transmissão entre 300 e 9600 bps; um serviço comutado de dados chamado RENPAC, com acesso X.25 e X.28 a taxas até 9.600 bps; e serviço via satélite usando a tecnologia VSAT (Very Small Aperture Transmitter). O limite de 9.600 bps devia-se às limitações dos modems analógicos da época, que ligavam-se às pontas do que seria uma linha privada de voz. Também era possível negociar serviços de velocidades mais elevadas em certas circunstâncias, e tais serviços passaram a integrar o leque normal de serviços da empresa na década atual. Porém, até meados dos anos 90, ainda não existia uma solução geral para o Problema da Última Milha, o termo usado na indústria de telecomunicações para estender o serviço desejado da central telefônica até a casa do cliente.

Até meados dos anos 90, a Embratel também provia serviços internacionais de telecomunicações, através dos sistemas de satélite INTELSAT e INMARSAT, três cabos telefônicos submarinos (dois para a Europa e um para os EUA), e conexões terrestres para países vizinhos para o sul e sudoeste. (A partir de 1996, iniciou-se o uso de novos cabos submarinos internacionais, de fibra ótica.) No final dos anos 80, serviços de comunicação de dados internacionais vinham sendo oferecidos através de linhas privados (até 9.600 bps) e através da interconexão internacional da rede comutada de dados, RENPAC.

Do ponto de vista jurídico, o monopólio estatal de telecomunicações vinha sendo interpretado nos anos 80 como a proibição do transporte de tráfego de terceiros por clientes da Embratel. Isto naturalmente impossibilitava a montagem de uma rede de comunicação de dados para atender a uma comunidade específica, e até o final dos anos 80, havia sido relaxada em apenas três casos: o sistema SWIFT da comunidade financeira internacional, o sistema SITA de reserva de passagens aéreas, e as redes acadêmicas e de pesquisa aqui descritas. Nos dois primeiros casos, o ponto de acesso internacional foi instalado num prédio da Embratel. Neste último caso, a solução encontrado foi tecnicamente mais convencional. Entre 1989 e 1995, a Embratel considerava o serviço de rede da comunidade acadêmica e de pesquisa como um "serviço restrito", o que limitaria o tipo de tráfego que pudesse ser transportado.

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Primeiros passos

Do ponto de vista do crescimento do uso das redes de comunicação de dados, o acontecimento mais significativo da década dos 80 foi seguramente a decisão da National Science Foundation (NSF) dos EUA, tomada em 1985, em investir na montagem de redes para atender a comunidade acadêmica e de pesquisa nesse país. Em 1986, foram publicados dois artigos [3, 4] que descreviam as redes utilizadas pela comunidade acadêmica e de pesquisa nos EUA, e estes deram grande destaque à rede BITNET [5], operacional desde 1981, e à NSFNET [6], criada em 1986.

A BITNET era uma rede de mainframes, que transportava mensagens de correio eletrônico usando tecnologia desenvolvida com outro propósito pela IBM. A sua grande atração foi a sua simplicidade de adesão e operação, especialmente se a instituição participante já possuísse um computador da IBM. A NSFNET, por outro lado, faria parte da Internet, usando a família de protocolos TCP/IP, desenvolvida dentro dos projetos da Defense Advanced Research Projects Agency (DARPA) , e que permitiria praticamente qualquer tipo de aplicação via rede, e especialmente o uso interativo de computadores remotos (TELNET), a transferência de arquivos (FTP) e, já nos anos 90, a consulta interativa de bases de informação (WWW), além do correio eletrônico, é claro. Uma descrição ampla dos serviços da Internet pode ser encontrada em [7].

Até 1987, já havia sido reconhecida, em várias instituições, a importância para a comunidade acadêmica da utilização de redes de computadores, e estavam sendo preparados diversos projetos independentes, que iriam prover soluções parciais, especialmente no LNCC, na FAPESP e na UFRJ (ver abaixo). Foi dentro deste contexto que foi realizada na USP, em outubro desse ano, a primeira reunião para discutir o estabelecimento de uma rede nacional para pesquisadores, com o compartilhamento de acesso a redes internacionais. Além dos participantes de instituições de pesquisa e de órgãos de fomento, também estavam presentes representantes da Embratel, e foi levantada, embora não resolvida, a questão legal de comutação de tráfego de terceiros. Neste encontro, os diferentes atores do futuro das redes brasileiros estiveram juntos pela primeira vez, e o clima franco e aberto das discussões foi importante para ajudar a evitar a adoção de soluções que tornassem mais difícil a futura integração das diferentes iniciativas. Como resultado direto da reunião, foi plantada a semente do que seria uma rede nacional para pesquisa, feita sob encomenda. Outra conseqüência foi a participação brasileira no 6o International Networking Workshop, realizado o mês seguinte em Princeton, NJ, EUA, onde foi feito contato com a comunidade internacional de redes para pesquisa.

A Embratel somente admitiu o transporte de tráfego de terceiros pelas redes da comunidade acadêmica e de pesquisa em outubro de 1988, um mês depois do estabelecimento da primeira conexão internacional, e com o planejameto de outras conexões bem adiantado. As restrições antes impostas a este tráfego haviam causado os primeiros projetos a procurarem soluções para contornar as imposições legais. Desta forma, a primeira conexão estabelecida, à taxa 9.600 bps à rede BITNET entre o Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC) do CNPq, no Rio de Janeiro, à Universidade de Maryland, próxima da capital norte-americana, objetivava abrir acesso amplo à BITNET através do expediente de permitir acesso discado (ou via RENPAC) ao LNCC por qualquer membro da comunidade nacional de pesquisa, formalmente considerado um pesquisador do CNPq. A segunda conexão internacional, inicialmente operando na taxa de 4.800 bps e instalada em novembro de 1988 entre a Fundação de Amparo à Pesquisa do estado de São Paulo (FAPESP) e o Fermi National Laboratory (Fermilab) em Chicago, previa o atendimento do sistema de universidades e de pesquisa do Estado de São Paulo, evitando desta forma as restrições legais sobre tráfego de terceiros. Esta conexão usava a tecnologia DECnet, e permitia acesso à HEPNET (High Energy Physics Network) e à BITNET. Uma terceira conexão independente à BITNET, também em 4.800 bps, foi instalado em maio de 1989 entre a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Universidade de California em Los Angeles (UCLA).

Logo, até maio de 1989, o País já possuía três ilhas distintas de acesso à BITNET. Duas na cidade do Rio de Janeiro, e uma no estado de São Paulo, e era possível a comunicação entre estas ilhas, através da rede internacional BITNET. O levantamento da restrição sobre tráfego de terceiros agora abriu as portas para uma racionalização desta situação, e para o estabelecimento de uma rede nacional que permitisse compartilhar acesso às redes internacionais. Isto foi realizado durante os dois anos subseqüentes, com a interconexão a nível nacional entre as ilhas separadas, e com a extensão de conectividade a outros centros de pesquisa no País. Isto ocorreu através do crescimento simultâneo das duas ilhas baseadas no LNCC e na FAPESP, e, até o final de 1991, a topologia da rede nacional era de duas estrelas interligadas, e poucos estados não possuíam pelo menos um nó da rede.

Mapa da BITNET em 1991

Figura 1: Conexões Usadas para a Rede Nacional em 1991

A Figura 1 ilustra a rede de linhas privadas em uso no final de 1991. Deve ser notado que várias instituições adicionais também tinham acesso à rede usando acesso discado (com UUCP) ou conexões RENPAC, principalmente ao nó da FAPESP em São Paulo. A grande maioria das conexões ilustradas eram da rede BITNET, mas algumas instituições mantinham ligações DECnet, e integrava também a HEPNET. Algumas poucas instituições já faziam parte da Internet, apesar do uso de enlaces de velocidade muito pequena (ver a próxima seção). Seria correto dizer deste estágio que o único serviço disponível nacionalmente era o correio eletrônico. Porém, sabe-se que este serviço serve para alavancar projetos mais ambiciosos!

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Experimentação com a Internet

Desde o início havia ficado evidente que a utilização apenas do serviço de correio eletrônico seria insuficiente para muitos pesquisadores, cujas necessidades incluíam acesso interativo remoto ou serviços de transferência de arquivos abrangentes. A questão da escolha da tecnologia era polêmica, em boa parte em função do papel importante desempenhado pela Secretaria Especial de Informática (SEI) do Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT) até o início de 1990. A SEI possuía amplos poderes para determinar as tecnologias de computação e comunicações a serem usadas na comunidades acadêmica e de pesquisa, financiadas em grande parte pelo governo, e também determinava e executava a política industrial do governo para a informática. A SEI foi um forte defensor das soluções OSI/ISO no campo de comunicação entre computadores, e havia sido deixado muito claro para a comunidade acadêmica e de pesquisa que apenas soluções OSI seriam admitidas numa rede nacional. A tecnologia BITNET foi apenas tolerada inicialmente, como uma solução pragmática e imediatamente disponível para um serviço restrito. A tecnologia Internet não era considerada ser uma alternativa adequada ao OSI, pois não era governado por padrões internacionais formais.

Paradoxalmente, a posição da SEI vinha sendo subvertida, no final dos anos 80, nos laboratórios de pesquisa sendo patrocinados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) do mesmo MCT, onde se instalavam um número crescente de estações de trabalho, que usavam redes locais Ethernet, e tecnologia de comunicação Internet. Até 1989, já era aparente que a tecnologia Internet vencia o OSI a nível internacional, pelo menos nas redes acadêmicas e de pesquisa.

Em 1990, o recém-eleito governo Collor reduziu substancialmente os poderes da SEI, transformando-a no Departamento de Política de Informática (DEPIN) do MCT, o que culminaria em 1992 no fim da reserva de mercado de informática para produtores nacionais. Uma conseqüência imediata foi o abandono de oposição aberta, por parte do governo, ao uso acadêmico da tecnologia Internet, embora tenha sido mantida a preferência governamental pela tecnologia OSI, uma posição confirmada em 1992 com a publicação no Diário Oficial da União da primeira versão do POSIG (Perfil OSI do Governo)

Entretanto, o projeto de montagem de uma rede acadêmica nacional, cuja semente havia sido plantado em 1987, teve seu crescimento fortemente limitado pela exigência do uso de tecnologia OSI, e, até julho de 1990, havia proposto pouco mais do que uma rede de correio eletrônico de tecnologia OSI. A camisa de força OSI foi rompida primeiro no Rio de Janeiro, em setembro desse ano, quando, pela primeira vez, foi dado apoio oficial a um projeto de rede usando tecnologia Internet. O projeto em questão foi para uma rede regional para o estado do Rio de Janeiro, ligada à Internet, e foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ) .

Embora sua instalação tenha levado quase dois anos, este projeto serviu de modelo para diversos outros de outros Estados, e para a reformulação do projeto da rede nacional, o que ocorreu logo depois. Os detalhes destes projetos são discutidos na próxima seção. Também causou discussão da situação nacional no Coordinating Committee for International Research Networks (CCIRN) e no International Engineering Planning Group (IEPG) , devido à perspetiva de virem a ser instaladas múltiplas conexões Internet entre o País e os EUA. Assim, um membro do CCIRN visitou o País, em novembro de 1990, para discutir a situação com os principais envolvidos do Rio de Janeiro e São Paulo.

Acesso do País à Internet tornou-se possível em fevereiro de 1991, quando a FAPESP, após aumentar para 9.600 bps a velocidade da sua conexão ao Fermilab, instalou o software Multinet da TGV e começou a transportar tráfego IP, além de DECnet (tecnologia de redes própria da Digital Equipment Corporation) e BITNET. A conectividade IP foi logo estendida para um número pequeno de instituições nos estados de SP, RJ, RS e MG, usando linhas privadas de baixa velocidade (entre 2.400 e 9.600 bps), ou através da RENPAC. Esta rede embrionária proveu um ambiente de treinamento para técnicos de suporte de redes, além de um serviço operacional de correio eletrônico para alguns locais que não integravam a BITNET. A perspectiva de acesso à Internet também deu um grande incentivo para a montagem de redes internas às instituições, através da integração de redes locais antes isoladas, especialmente aquelas que ligavam o número crescente de estações de trabalho adquiridas com recursos concedidos pelo CNPq.

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Uma rede de segunda geração

A organização das redes brasileiras, no final de 1991, foi eminentemente cooperativa, onde cada instituição participante custeava seu enlace de telecomunicações ou para o Rio ou para São Paulo. (É interessante notar que o enlace direto entre o Rio e São Paulo era custeado pelo governo federal, para manter a harmonia nacional.) Uma solução definitiva para o problema de projetar uma rede nacional deveria adotar uma topologia de malha, o que seria mais robusto, e poderia até reduzir custos de telecomunicações, pela maior utilização de enlaces mais curtos. (Na prática, este efeito seria quase nulo, pois a tabela de preços de linhas privadas para comunicação de dados do grupo Telebrás cobrava o mesmo preço para enlaces de mais que 300 Km.)

Operar uma rede com uma topologia em malha requer uma estrutura administrativa própria, pois deixa de ser uma tarefa simples a alocação de custos. Teria que ser adotada uma estratégia, onde seria procurado financiamento pelo governo pelo menos para a provisão inicial de infra-estrutura da rede. Esta estratégia foi adotada e executada pela equipe montada pelo CNPq, sob a coordenação de Tadao Takahashi, e baseou-se numa arquitetura de rede que refletisse a organização administrativa do País. Esta arquitetura era semelhante à adotada pela National Science Foundation (NSF) nos EUA, com os três níveis de espinha dorsal (backbone) nacional, redes regionais e redes institucionais. No caso do Brasil, a espinha dorsal nacional seria um projeto do CNPq (do governo federal), enquanto as redes regionais seriam a responsabilidade dos governos dos estados, individual ou coletivamente. Em termos funcionais, a rede regional interligaria as redes institucionais numa determinada região, e a espinha dorsal nacional proveria serviços de interconexão entre as redes regionais. A princípio, conexões internacionais seriam feitas a partir da espinha dorsal nacional.

A tecnologia de preferência da nova rede seria TCP/IP (da Internet). Mas, para poder acomodar interesses minoritários e possíveis requisitos OSI no futuro, a espinha dorsal nacional e as redes regionais deveriam utilizar roteadores multiprotocolares. Finalmente, as taxas de transmissão a serem usadas nestas redes deveria ser as mais altas possíveis, sujeito a limitações financeiras. Quando esta arquitetura estava sendo proposta (1990 e 1991), a única taxa de transmissão de dados disponível de mais de 9.600 bps era de 2 Mbps, e era extremamente caro. Porém, já se esperava, em breve, a disponibilidade de um serviço de 64 Kbps, especialmente em enlaces urbanos e internacionais. Por isto, recomendava-se que este patamar fosse usado assim que estivesse disponível.

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A implementação da nova rede

Os três primeiros componentes da rede de segunda geração foram instalados em 1992. Estes foram a espinha dorsal nacional da Rede Nacional de Pesquisa (RNP) do CNPq, e as redes estaduais do Rio de Janeiro e São Paulo, que foram financiadas respetivamente pela FAPERJ e a FAPESP. Estas duas últimas redes foram instaladas, simultaneamente, na véspera da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (UNCED-92, ou Rio-92), realizada em junho de 1992 no Rio de Janeiro, uma vez que ambas as redes usavam novas conexões internacionais de 64 kbps, que serviram, inicialmente, para apoiar o Forum Global, uma reunião de Organizações Não Governamentais (ONGs) realizada em paralelo à UNCED-92.

O projeto da rede do Rio de Janeiro, conhecido como a Rede-Rio , inovou no uso de enlaces de 64 Kbps dentro da cidade do Rio, onde encontrava-se localizada a maioria das suas instituições participantes. Cada enlace usava um único canal digital de voz na rede de troncos digitais (PDH), interligando as centrais telefônicas da cidade. O problema da última milha era resolvido pelo uso de modems banda básica no enlace entre a central e o cliente. Depois deste uso pioneiro de circuitos de 64 Kbps para a Rede-Rio, a TELERJ o acrescentou a seu leque de serviços comerciais. A mesma técnica foi também usada para estender o canal internacional de 64 Kbps do ponto de presença da Embratel até a UFRJ, onde terminava. Este circuito foi usado para ligar a Rede-Rio à CERFnet , no Centro de Supercomputação em San Diego, CA, EUA, onde era feito acesso à NSFNET. Todos os nós da nova rede usavam roteadores multiprotocolares da marca Cisco. O centro de operações da Rede-Rio foi montado na UFRJ.

A rede estadual de São Paulo, conhecida como ANSP (Academic Network at São Paulo), usava inicialmente circuitos internos de apenas 9.600 bps. Mas, alguns clientes, por exemplo a USP, eram atendidos com múltiplos circuitos deste tipo. O enlace internacional continuou a ligar a FAPESP ao Fermilab, onde agora dava acesso à ESNET (Energy Sciences Network). Como no caso da Rede-Rio, foram empregados roteadores da marca Cisco. O centro de operações da ANSP se manteve na FAPESP.

A terceira das novas redes, a espinha dorsal nacional da RNP, foi montada gradativamente ao longo do segundo semestre de 1992, e interligava pontos de presença (abreviados a POPs, do inglês Point Of Presence), localizados em Brasília e em dez capitais de estado (ver Figura 2). A rede era multiplamente conexa, e era implementada, inicialmente, com circuitos de 9.600 bps. Com o passar do tempo e a disponibilidade de infra-estrutura da Embratel, alguns destes enlaces tiveram sua taxa de transmissão aumentada para 64 Kbps. Em 1993, já haviam sido instalados enlaces de 64 Kbps entre São Paulo e Porto Alegre, e no triângulo São Paulo - Rio de Janeiro - Brasília; e, em 1994, foi a vez da conexão entre São Paulo e Recife.

Mapa da RNP em 1993

Figura 2: As Conexões da RNP em 1993

O projeto inicial da RNP privilegiou aumentar a capilaridade da rede, levando acesso Internet para oito estados e o Distrito Federal, a investimentos em equipamentos e conexões internacionais. Desta forma, ao invés do uso de roteadores dedicados, roteamento na RNP era feito usando estações de trabalho das marcas Sun e Digital. O projeto também não incluía a instalação de enlaces internacionais, e, durante vários anos, o tráfego internacional dos demais estados, com a exceção do Rio de Janeiro, escoou-se pela conexão internacional da ANSP. O tráfego internacional da Rede-Rio usava o próprio enlace desta rede. Finalmente, ao invés de ser criado um centro de operações dedicado à RNP, as suas funções foram assumidas pela FAPESP, que já havia começado a administrar o domínio .BR do serviço de nomes DNS nos tempos da BITNET.

Depois de 1992, alguns outros estados instalaram suas redes regionais, e estas passaram a integrar o segmento brasileiro da Internet. Entre estas as primeiras foram do Rio Grande do Sul e Pernambuco em 1993. Na maioria dos outros casos, levou mais tempo até que a conectividade da rede se estendesse além da instituição que sediava o POP local.

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Outras redes não comerciais no país

Para ficar mais completo, é oportuno mencionar algumas das outras redes não comerciais, com conectividade internacional, que eram usadas no País antes da Internet.

A Associação para Comunicações Progressiva (APC) , uma organização internacional de ONGs, incluía o nó Alternex , operado pelo IBASE (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas) do Rio de Janeiro, e montado com o apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) em 1989. A Alternex oferecia serviços de news e correio eletrônico a indivíduos e organizações sem fins lucrativos. Até 1992 a Alternex/IBASE fazia sua comunicação internacional com IGC (Institute for Global Communication - o ponto de acesso à Internet da APC na California, EUA), usando a tecnologia UUCP sobre ligações discadas. Em 1992, Alternex/IBASE recebeu a incumbência de prover suporte para comunicação usando computadores para o Forum Global, realizado junto com a UNCED-92, e o projeto resultante, organizado em estreita colaboração com os projetos da RNP e da Rede-Rio, acabou provendo à Alternex/IBASE um acesso permanente à Internet através da Rede-Rio.

Antes da abertura comercial da Internet no País a partir de 1995, a principal forma de acesso a redes de computadores para o indivíduo era através do BBS (Bulletin Board System), que ofereiam serviços semelhantes aos da Alternex/IBASE. Existia uma rede extensa destes BBSs, usando ligações discadas, que fazia parte da FidoNet , através de uma conexão internacional a partir do Recife. A partir do estabelecimento de conectividade internacional pela comunidade acadêmica, muitos destes BBSs conseguiram rotear seu tráfego internacional através da rede acadêmica, de forma mais ou menos informal.

A comunicação através de computadores por radioamadores era bem representada no País. Tipicamente, uma comunidade local de radioamadores mantinha uma espécie de BBS para seus membros. Este BBS possuía conectividade internacional, através do uso de transmissão na banda HF (ondas curtas), porém com estreita banda passante, ou através de micro-satélites de baixa órbita. Estes micro-satélites nada mais eram que BBSs em órbita, permitindo operações de upload/download de correio eletrônico durante seu período de visibilidade, pelo menos duas vezes ao dia.

Em conseqüência das restrições de licenciamento de radioamadores, não seria viável a completa interoperação entre sua rede e as redes acadêmicas. Porém, já havia sido iniciada até 1993, pelo menos, uma experiência em várias cidades do interior do Rio Grande do Sul, onde várias escolas públicas usavam a tecnologia dos radioamadores para intercomunicação, e para comunicação com o resto do mundo (dos radioamadores) [8]. Neste caso, cada escola tem um responsável, devidamente licenciado como radioamador. Em 1994, esta rede também contava com acesso à Internet, através da UFRGS em Porto Alegre. A rede de rádio no RS não usava tecnologia TCP/IP, mas esta tecnologia hoje em dia é muito usada por radioamadores, e com o crescimento da Internet, eles, freqüentemente, conseguem manter a conectividade global das suas redes, usando técnicas de tunelamento através da Internet.

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O que viria depois de 1993

Em 1993, já era aparente quais seriam as direções de desenvolvimento das redes nacionais, além das suas limitações vigentes. Algumas delas decorriam de avanços tecnológicos no campo das telecomunicações, enquanto outras seriam conseqüências sociais das inovações realizadas na comunidade acadêmica.

No campo social, o exemplo de alguns outros países, e especialmente dos EUA, já indicava a extensão do uso da Internet pela comunidade em geral. Desde 1990, havia oferta comercial de serviço Internet nesses país, e o segmento comercial era quem exibia maior taxa de crescimento. Seria apenas uma questão de tempo e oportunidade até que fosse realizada também a abertura comercial da Internet brasileira. O processo iniciou-se no final de 1994, quando a Embratel anunciou que passaria a comercializar acesso discado à Internet. Para maiores detalhes da evolução deste processo sugere-se a leitura da seção 20.3 de [7].

Uma segunda onda de modernização, há vários anos, vinha modificando a infra-estrutura de telecomunicações usada no País, e sua manifestação principal era a utilização de fibras ópticas para o transporte de serviços de faixa larga. As operadoras regionais de telecomunicações vinham instalando cabos ópticos para troncos telefônicos havia muitos anos, e agora vinham experimentando com novos serviços, tais como redes metropolitanas, que pudessem aproveitar a capacidade de transmissão instalada. Para citar um exemplo: com a ativa participação da comunidade de pesquisa em redes, a Telerj começou a testar diversas tecnologias deste tipo, incluindo as tecnologias DQDB e ATM, com velocidades internas de até 155 Mbps. Adicionalmente, a Embratel iniciou investimentos no uso de fibra óptica para comunicações à longa distância. Assim, em 1996, foi inaugurado um sistema de transmissão usando cabos ópticos submarinos, que ligava cidades costeiras entre Fortaleza e Florianópolis, e fazia parte da comunicação internacional entre os países do Mercosul e o Caribe, com ramificação para EUA e Europa. A Embratel também iniciou, dois anos antes, seu programa de instalação de cabos ópticos em terra, inicialmente entre Rio e São Paulo.

Para complementar o aumento da capacidade interna dos sistemas de telecomunicações, seria necessário resolver em patamar mais elevado de velocidade o problema da última milha. As soluções que foram utilizadas inicialmente eram enlaces digitais de rádio, que já vinham sendo usados desde 1992 pela Embratel, na sua versão de linhas privadas de 64 Kbps. A elevação da taxa de transmissão para 2 Mbps também usava soluções deste tipo, e a Embratel já instalou uma rede ATM experimental no Rio de Janeiro usando enlaces de rádio de 34 Mbps. Posteriormente, passou a ser adotado o cabeamento óptico até o cliente.

O uso de enlaces de rádio não era restrito aos serviços oferecidos pelas empresas do grupo Telebrás. Há vários anos, vinham sendo usados enlaces privados de rádio, onde o usuário adquiria o equipamento de rádio e fazia sua própria operação. A tecnologia de transmissão usando espectro espalhado oferecia soluções baratas, sem a necessidade de obter uma licença formal de uso, ao contrário da tecnologia de espectro estreito, tradicionalmente usada. Havia ainda as perspetivas oferecidas pelas redes de TV a cabo, cujo uso para transmissão de dados vinha sendo examinado.

Já era claro, em 1993, que estas inovações teriam profundas conseqüências sobre a forma de montar e usar futuras redes, e podia-se esperar que a comunidade acadêmica também seria afetada por elas.

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Lições aprendidas

Se houve lições a aprender da experiência brasileira do desenvolvimento de redes até 1993, estas decorriam da grande resistência inercial a mudanças observadas na sociedade, no governo e na comunidade acadêmica. Apesar de serem tomados os primeiros passos em 1987, levou até 1993 para serem suficiente e amplamente reconhecidos os benefícios do uso não comercial das redes para ganhar o apoio ativo ou passivo de líderes políticos e comunitários em várias regiões do País. O que tornou possível avançar tanto foram os esforços da equipe do CNPq, que assumiu a dianteira no processo de procurar uma base ampla de sustentação para o desenvolvimento das redes, com a participação dos governos federal e dos estados, apoiado a partir de 1992 com recursos externos provenientes do PNUD.

Entre as manifestações mais evidentes desta resistência inercial deveriam ser contados os longos prazos necessários para a instalação dos enlaces de telecomunicações, e para a importação de equipamentos vitais, tais como roteadores. A combinação destes dois fatores resultou numa relutância em modificar a configuração dos circuitos instalados e operacionais, mesmo quando isto poderia ter resultado em melhor aproveitamento dos recursos investidos. Por exemplo, deve ser notado que a rede nacional, em 1993, ainda contava com apenas os mesmos três enlaces internacionais aos EUA, que haviam sido instalados entre 1988 e 1989, embora dois destes tivessem aumentado substancialmente sua capacidade. Por outro lado, podia ser observado que a introdução de competição limitada (entre Embratel e outras empresas do grupo Telebrás) para a provisão de serviços de comunicação de dados foi geralmente benéfica para a melhoria em conexões das redes.

Deve ser enfatizado que a adoção de comunicação em redes entre pares (peer networking), como usada na Internet, está intimamente relacionada ao abandono do modelo tradicional de prover acesso a serviços computacionais através de um mainframe. Em 1993, a grande maioria das universidades brasileiras ainda operava um serviço deste tipo como sua forma principal, quando não única, de dar acesso à computação. Muitas vezes tem sido difícil colocar os usuários de tais instituições em contato com as redes modernas, devido aos papéis de redes e de computação percebidos pelos administradores e pelo pessoal responsável pelo suporte técnico nestes centros. Felizmente, a computação distribuída é altamente subversiva de tais posições, e são possíveis avanços enormes se os grupos de usuários forem convencidos da utilidade imediata da criação de redes locais de estações de trabalho ou computadores pessoais, para compartilhar impressoras ou servidores de arquivos. Numa segunda fase, estas redes locais podem ser interligadas para formar uma inter-rede local, e esta deve ser, de preferência, ligada à Internet. Este caminho foi seguido repetidamente no País, e recebeu enorme impulso da provisão pelo CNPq de pequenos conjuntos de de estações UNIX, ligadas em rede local, para grupos de pesquisa em instituições espalhados por todo o País. Hoje em dia, deveria ser possível obter o mesmo efeito usando computadores pessoais de alto desempenho numa rede local. A ampla disponibilidade de software de rede de boa qualidade, a custo baixo ou gratuito, torna muito mais fácil o trabalho de integração em larga escala.

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Conclusão

Tentamos descrever aqui a história do desenvolvimento inicial das redes de computadores na comunidade acadêmica e de pesquisa no País. O uso de redes já trouxe profundos benefícios para esta comunidade, encurtando distâncias entre indivíduos espalhados por todo o território nacional, e integrando-os à comunidade internacional de pesquisa de uma forma e numa escala antes impossível. Felizmente estes benefícios foram reconhecidos em tempo hábil, e tem havido amplo apoio para realizar os investimentos consideráveis que foram necessários em tempos de austeridade econômica.

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Agraddecimentos

Num esforço comunitário e inovador como criar uma infra-estrutura e cultura de redes de larga escala, contribuições importantes são devidas a muitos indivíduos, e o autor gostaria de reconhecer todo o apoio recebido de colaboradores e estudantes, tanto no País como no exterior, nos seus esforços de compreender e disseminar a ciência e engenharia de redes. Agradecimentos especiais são devidos a Alexandre Grojsgold, Demi Getschko, Paulo Aguiar e Tadao Takahashi, sem cuja participação ativa, pouco do que se descreveu aqui teria acontecido.

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Referências

[1] Este artigo é adaptado de Stanton, Michael, " Non-commercial networking in Brazil ", Proceedings do Inet'93, San Francisco, 1993.

[2] A empresa Network Wizards conduz censos semestrais baseados em dados do DNS. V. http://www.nw.com .

[3] Dennis Jennings, Laurence Landweber, Ira Fuchs, and David Farber, "Computer Networking for Scientists," Science 23 (February 1986).

[4] John Quarterman, "Notable Computer Networks", Communications of the ACM 29:10, (October 1986).

[5] University of Maryland BITNET resource page, http://www.inform.umd.edu:8080/CompRes/NetInfo/Bitnet/

[6] "The NSFNET, a network for researchers and learners", http://www.chaos.com/learn/NSF.html

[7] Denise Del Re Filippo e Alexandre Sztajnberg, Bem-vindo à Internet, Brasport Livros e Multimídia Ltda., Rio de Janeiro, 1997. Veja também http://www.iprj.uerj.br/~denise/livro.html .

[8] Fagundes, L.C. , comunicação reservada, 1994.

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