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ISSN 1518-5974
Boletim bimestral sobre tecnologia de redes
produzido e publicado pela  RNP – Rede Nacional de Ensino e Pesquisa
11 de maio de 2001 | volume 5, número 3

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Nesta edição:

NewsGeneration:



A Experiência do TRT com o Linux

Ari Frazão Jr. <>

Tribunal Regional do Trabalho da 6a Região

Resumo
1. Introdução
2. O Linux e a Informatização de Varas
2.1 Informatização com o SIAJ
2.2 Informatização com o SIAJ2000
3. O Linux e o Bug do Ano 2000
4. Outras Aplicações para o Linux
5. Alguns Números
6. Conclusão
Sítios Relacionados

Resumo

Este documento relata a experiência da Secretaria de Informática do Tribunal Regional do Trabalho da 6a Região na utilização do sistema operacional Linux na informatização de varas do trabalho e como servidor de arquivos e de banco de dados para aplicações administrativas do próprio tribunal.

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1. Introdução

O processo de informatização de uma vara do trabalho ainda é um processo caro. Além dos custos associados à aquisição de novos equipamentos (o que, em informática, costuma-se chamar de hardware), há que ser computado também o cada vez menos disprezível custo de software. Neste caso, devem ser considerados não apenas softwares como banco de dados, editores, etc. O próprio sistema operacional presente no servidor contribui significativamente para onerar este custo.

O Estado de Pernambuco possui 53 varas do trabalho. Historicamente, estas varas do trabalho sempre foram informatizadas utilizando o sistema operacional UNIX. Assim, todo o sistema de acompanhamento de processos, chamado de Sistema de Informatização e Automação Judiciária - SIAJ, foi desenvolvido utilizando a linguagem de programação de um banco de dados comercial e de um editor de texto também comercial. Com a redução do orçamento que se abateu sob a maioria das instituições federais nos três últimos anos, o processo de informatização das varas do interior do Estado ficou seriamente ameaçado.

No segundo semestre de 1998, o número de varas informatizadas em Pernambuco era 37. O cronograma de informatização previa, para aquele ano, a instalação do SIAJ em mais três varas do trabalho. No entanto, a solução até então utilizada, que atrelava software a um hardware especial, tornou-se inviável com o aumento do valor cobrado para este equipamento.

Neste momento, começou-se a especular a utilização do sistema operacional Linux, que poderia ser instalado em um microcomputador comum a um custo praticamente nulo.

Daí para frente, a quantidade de serviços instalados em máquinas Linux só fez aumentar. De servidores do SIAJ para a primeira instância, este sistema passou a ser utilizado em computadores que rodam as mais diversas aplicações para o setor administrativo do TRT, culminando com a substituição do servidor de arquivos por uma solução baseada neste sistema. E a principal motivação para a a sua atualização pode ser resumida em dois aspectos: robustez e baixo custo.

O presente documento apresenta a experiência desenvolvida pelos técnicos da Secretaria de Informática do TRT da 6a Região quando da utilização do sistema operacional Linux na informatização de varas do trabalho e como servidores de arquivo e de banco de dados para aplicações administrativas do próprio tribunal.

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2. O Linux e a Informatização de Varas

Conforme já dito anteriormente, o processo de informatização de uma vara do trabalho ainda é algo bastante dispendioso. No entanto, este valor já foi muito maior. A ameaça de quebra do cronograma de informatização de varas para o ano de 1998, forçou-nos a adotar o sistema operacional Linux como forma de baratear os custos deste processo, uma vez que, com ele, conseguiu-se fugir da solução até então adotada que atrelava software (servidor de banco de dados e editor de texto) a um hardware especial de custo elevado. O processo de informatização de varas é descrito nas duas seções que seguem.

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2.1 Informatização com o SIAJ

Pode-se dizer que a adoção do Linux como sistema operacional para a informatização de varas com o SIAJ aconteceu devido a uma única razão: a necessidade de barateamento de custos.

Inicialmente, houve dúvidas quanto a factibilidade da adoção do Linux, uma vez que se pretendia continuar com o processo de informatização, utilizando o sistema já então desenvolvido e que fazia uso da linguagem de programação de um banco de dados comercial (além do próprio banco) e de um editor de texto também comercial.

Assim, a primeira dúvida a se esclarecer era se existiam versões do servidor de banco de dados e do editor utilizados desenvolvidas para o Linux. A resposta era não. No entanto, ambos possuíam versões para um outro sistema operacional UNIX para microcomputadores, o SCO (este comercial). Começou-se, então, um estudo para saber da possibilidade de se utilizar os executáveis destes programas desenvolvidos para o SCO no Linux. A resposta a este problema veio quando descobriu-se que o próprio Linux permitia a execução de programas compilados para outros sistemas através da ativação, no núcleo do sistema (kernel), da opção iBCS (Intel binary compatibility mode).

O processo de migração do SIAJ para o Linux, propriamente dito, deu-se de forma rápida e tranqüila. O sistema que, dentre outras coisas, foi também configurado para atuar como servidor de impressão e de FTP, foi testado por três semanas consecutivas e, neste intervalo, funcionou de forma satisfatória, necessitando apenas de pequenos ajustes em scripts administrativos e definições de terminais (TERMINFO).

Desta forma, foram informatizadas, ainda no segundo semestre de 1998, as três varas do trabalho (então chamadas de juntas do trabalho) que constavam no cronograma de informatização daquele ano. Foram as varas das cidades de Limoeiro, Ipojuca e Ribeirão.

No ano seguinte, mais quatro varas foram informatizadas utilizando esta solução. Desta vez, foram contempladas as varas presentes nas cidades de Barreiros, Palmares, Nazaré da Mata e Garanhuns.

Em algumas destas varas, foram instalados servidores Linux extras para atuar como servidores de impressão, onde havia necessidade de instalação de um maior número de impressoras do que o usual; ou mesmo como servidor de terminais, onde o número destes excediam o número de portas seriais disponíveis no servidor do SIAJ.

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2.2 Informatização com o SIAJ2000

Ao projeto de desenvolvimento de um sistema de controle processual para a primeira instância que se baseasse em um ambiente de janelas e que parecesse mais amigável ao usuário deu-se o nome de SIAJ2000. Este sistema, basicamente, importa para um ambiente de janelas as funcionalidades do sistema anterior, onde recursos outros, como mouse e o editor de texto Word podem ser utilizados, o que torna a interação com o usuário mais fácil.

Neste caso, seguindo a filosofia cliente-servidor, foi desenvolvida a aplicação cliente utilizando-se a linguagem de programação DELPHI. Do lado do servidor, foi instalado o servidor de banco de dados relacional Interbase.

Mais uma vez, optou-se pela utilização de um servidor Linux por este apresentar todas as características necessárias ao bom desempenho do SIAJ2000, bem como por já se ter adquirido experiência na sua administração. Também foi levado em conta o bom desempenho deste sistema nas varas informatizadas com o SIAJ e que foram listadas na seção anterior.

A opção pelo banco de dados Interbase deu-se pelo fato do mesmo ser gratuito, ter compatibilidade com o SQL92, oferecendo, portanto, suporte a stored-procedures e consultas aninhadas. Além de permitir replicação, backup com o banco em produção e tratar-se de um banco de dados de grande utilização comercial.

Além de atuar como servidor de banco de dados, o computador foi também configurado para atuar como servidor de arquivos. Para tal, foi instalado o Samba, conjunto de programas que implementam o protocolo SMB (também conhecido como NetBIOS) num ambiente UNIX. Desta forma, o servidor passou a poder armazenar e disponibilizar arquivos para serem utilizados em ambiente Windows.

Deve-se salientar que esta solução barateia ainda mais o custo de informatização, uma vez que não é mais necessário adquirir lincenças para o banco de dados.

A inauguração do SIAJ2000 na vara da cidade de Escada ocorreu no último mês de agosto. De lá para cá, mais duas outras varas foram informatizadas com este sistema: Goiana e Timbaúba.

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3. O Linux e o Bug do Ano 2000

Durante o ano de 1999, boa parte das ações da Secretaria de Informática, assim como nos diversos setores de informática do mundo inteiro, voltaram-se para tentar prevenir os problemas que seriam causados pelo chamado bug do ano 2000. Na época, falava-se em transtornos sem fim para a sociedade graças a incapacidade de boa parte de computadores de saber, na virada do ano de 1999 para o de 2000, que estaríamos no ano 2000, e não no ano 1900.

A nossa maior preocupação dizia respeito aos sistemas onde rodavam o SIAJ, uma vez que estes se responsabilizam por calcular prazos de todos os processos que tramitavam pela Justiça do Trabalho em Pernambuco. Erros neste sentido poderiam resultar em questões legais que atravancariam ainda mais o curso do processo dentro da Justiça.

Neste ponto, das 44 varas então informatizadas, 18 mereciam maior preocupação. Isto porque as 26 outras haviam sido informatizadas utilizando o sistema operacional Linux ou Solaris. As máquinas que continham o primeiro não estavam sujeitas aos problemas do bug e as que continham o segundo foram atualizadas através de soluções fáceis e gratuitas fornecidas pela própria Sun. Assim , as 18 outras que haviam sido informatizadas com máquinas UNISYS, necessitavam de um upgrade hardware para terem seus sistemas atualizados para uma versão imune ao bug. Entretanto, o valor cobrado para o referido upgrade tornava toda a operação proibitiva. Optou-se, então, pela migração do SIAJ que rodava em tais máquinas para sistemas em Linux.

O processo de migração como um todo durou, praticamente, três meses. Uma vez que o sistema já se encontrava em produção e não podia ser parado, sob pena de atrasos em pautas e o conseqüente e burocrático adiamento de audiências, a migração do SIAJ para servidores Linux teve que ser feita durante as sextas-feiras, dia em que, na maioria das varas, não havia audiência marcada e o expediente podia encerrar um pouco mais cedo.

Apesar do desgaste que todo este processo causou, pode-se dizer que o sucesso do mesmo foi absoluto. Nenhuma vara deixou de funcionar no início do ano 2000 por problema causado pelo bug. Um ganho indireto foi a maior satisfação dos usuários (funcionários das varas) que passaram a trabalhar com um sistema muito mais ágil que o anterior.

A substituição dos antigos servidores pelos novos sistemas com Linux acabou trazendo um outro ganho indireto: o incremento do número de varas que tiveram disponibilizados, na Internet, os andamentos dos seus processos, e a conseqüente inclusão das mesmas no serviço conhecido como TRT6push (envio de mensagens, via correio eletrônico, para interessados sempre que houver algum andamento novo associado a um processo). Estas varas passaram a enviar, durante a madrugada, os andamentos dos processos para um servidor localizado no tribunal através de IP discado, serviço não disponibilizado no sistema antigo.

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4. Outras Aplicações para o Linux

A experiência adquirida acabou incentivando o uso do Linux como servidor de banco de dados para aplicações administrativas do próprio tribunal, além de servidor de arquivos para cerca de cinco centenas de usuários.

Desta forma, foram desenvolvidos os sistemas para o setor de compras, utilizando o banco de dados MySQL; o sistema do almoxarifado, o de combustíveis e o de controle de chamados técnicos da Secretaria de Informática (sistema de helpdesk). Estes últimos, utilizando o banco de dados Interbase.

A instalação, configuração e o conseqüente uso do Linux como servidor de arquivos, através do Samba, acabou levando à aposentadoria os dois servidores Novell até então existentes nesta instituição. O problema inicial de backup de cerca de 9GB de informação foi resolvido com a adoção do programa taper, que tem se mostrado eficiente na cópia, bem como na recuperação de arquivos danificados por usuários.

Outra aplicação, desenvolvida via Linux, diz respeito à criação de uma espécie de "servidor de logins remotos", onde, numa única máquina, foram instalados modems e disponibilizado um menu para os funcionários que necessitam estabelecer uma conexão com algum servidor presente em uma vara remota. Os maiores usuários deste sistema são os próprios funcionários da Secretaria de Informática que necessitam fazer alguma manutenção nestes sistemas; embora o mesmo também seja utilizado pelos funcionários da Corregedoria. Neste caso, houve uma economia de linhas telefônicas e modems, uma vez que os mesmos passaram a ser compartilhados por vários usuários de diferentes setores do tribunal.

Também encontra-se instalado um servidor Web já em produção, bem como encontra-se em estudo a migração do nosso servidor de correio eletrônico para uma solução que utilize o Linux, em associação com o sendmail e o IMAP.

Além disso, está previsto o desenvolvimento de novos programas que deverão substituir antigos sistemas baseados em linguagens como Clipper, tais como o sistema de folha de pagamento, cadastro de pessoal e protocolo administrativo.

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5. Alguns Números

O processo de informatização de varas com o sistema operacional Linux teve início no segundo semestre de 1998. Hoje, de um total de 47 varas informatizadas, 28 fazem uso deste sistema, ou seja, cerca de 60%. Até o meio deste ano, com a informatização das seis últimas varas que restam, teremos um total de 64% de varas informatizadas com o Linux. E este número pode crescer ainda mais se consideramos que, com a obsolescência de alguns sistemas que hoje baseiam-se em estações de trabalho Sun, estes, fatalmente, serão substituídos pela solução Linux, que se mostra robusta e bem mais barata.

Nos custos do processo de informatização de uma vara, a aquisição do servidor é um dos itens que mais pesam no orçamento. Antes de 1998, a aquisição de um servidor (hardware e sistema operacional) girava em torno de US$ 6,000 (seis mil dólares americanos), e hoje, com o uso do Linux, encontra-se em torno de US$ 1,500 (um mil e quinhentos dólares), resultando numa economia de cerca de US$ 4,500 (quatro mil e quinhentos dólares) por vara informatizada. Uma conta simples nos revela que, de 1998 para cá foi feita uma economia de US$ 45,000 (quarenta e cinco mil dólares), o que daria algo próximo de R$ 90.000 (noventa mil reais) em valores atuais.

Além disso, a substituição dos sistemas UNISYS por Linux devido ao problema do bug do ano 2000, também nos levou a uma economia de cerca de US$ 76,500 (setenta e seis mil e quinhentos dólares).

Se consideramos a economia feita com a adoção de bancos de dados gratuitos, servidores de arquivos, servidores Web, etc, então o valor economizado sobe ainda mais, ficando em torno de R$ 253.920,00 (duzentos e cinqüenta e três mil, novecentos e vinte reais).

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6. Conclusão

O processo de adoção do Linux como sistema operacional de produção de boa parte das varas de trabalho de Pernambuco veio de forma natural, uma vez que o próprio sistema de controle processual adotado baseia-se em sistemas UNIX.

No entanto, a sua utilização tem sido cada vez maior. Muitos novos serviços têm sido oferecidos através de servidores Linux e, com isso, a economia feita tem sido crescente. E não apenas isto: o Linux também tem conseguido substituir soluções até então adotadas com vantagens que vão além da economia e se expressam em aumento de desempenho e confiabilidade.

A utilização de softwares gratuitos por parte de órgãos governamentais tem sido defendida por vários membros do legislativo brasileiro. No Rio Grande do Sul, foi aprovada uma lei estadual que que dispõe sobre o uso preferencial de software livre pelas empresas públicas.

Ao que tudo indica, com a adoção do Linux, estamos apenas nos adiantando aos fatos.

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Sítios Relacionados

TRT da 6a Região: http://www.trt6.gov.br

Linux Home Page: http://www.linux.org

Sobre uso de software livre: http://www.conectiva.com.br/noticias/2001/01/19/971_det.html

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